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quarta-feira, 12 de março de 2014

CRIANÇA QUE FALA ERRADO TEM MAIOR PROBABILIDADE DE ESCREVER ERRADO

Você sabe qual é a área do cérebro que utilizamos para escrever? Se não souber responder, não se preocupe. O motivo é simples: não há uma área específica do cérebro para a escrita.
 
O ato de escrever foi desenvolvido pelo homem a fim de se comunicar. Por não ser algo natural, para realizá-lo acionamos os mesmos mecanismos cerebrais que utilizamos para falar, convertendo assim o som em imagem. “É por isso que quando lemos algo em voz baixa ouvimos nossa própria voz em nossa cabeça”, explica fonoaudióloga e psicopedagoga Telma Pantâno. Ou seja, falar e escrever são ações profundamente relacionadas e dificuldades em uma dessas competências podem refletir na outra.
É por isso que o problema da fala não deve ser subestimado. “Uma fala errada, que ao mesmo tempo é irresistivelmente engraçadinha, pode mascarar a dificuldade da criança em se comunicar adequadamente”, alerta a também fonoaudióloga Marta de Toledo Prioli.
Muitas vezes, as dificuldades de aprendizagem, comportamento e linguagem são confundidas, o que produz inúmeros diagnósticos equivocados. As crianças acabam sendo rotuladas como problemáticas, quando, na verdade, possuem problemas de comunicação.

Qual a relação da fala com a escrita?
A escrita é a relação entre um som de nossa língua (fonema) e um sinal gráfico (grafema). Normalmente, cada fonema é representado por uma única letra; assim, para representar o fonema /i/, usamos o grafema i. Para escrever, devemos relacionar um som com um sinal gráfico, mas se a produção desse som não for adequada (no caso de quem fala errado), a escrita poderá ficar prejudicada.

Quais são os problemas relacionados à fala?
Algumas alterações são mais evidentes, como gagueira, língua presa e rouquidão, porém outras não são tão óbvias e podem causar grandes transtornos. E os professores muitas vezes não são preparados para diferenciar as alterações de linguagem, fala e voz, que não são a mesma coisa. A presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, Irene Marchesan, explica que a linguagem consiste naquilo que se quer dizer, a fala é a articulação dos sons, e a voz, que faz parte da fala, é o som em si, com determinada frequência e intensidade.As alterações de fala que mais prejudicam o aprendizado da escrita são as de origem perceptiva: a criança, mesmo escutando perfeitamente bem, não percebe auditiva-sinestesicamente as características de um determinado som e por isso não consegue reproduzi-lo.
De acordo com Jaime Zorzi, médico-fonoaudiólogo e especialista em crianças com dificuldade de aprendizagem, o sucesso da comunicação escrita depende muito da comunicação oral. Ele contou a história de dois meninos com dificuldades para aprender a ler e escrever. Jaime ditava aos garotos uma palavra e, na primeira tentativa, o resultado era desastroso: as letras no papel não tinham nenhuma relação com o que fora dito.
Em seguida, Jaime ajudava a criança a escutar os sons das palavras, separando-as em sílabas. Assim, conforme os meninos repetiam em voz alta os sons pretendidos, o resultado melhorava. “Quando falavam, se saíam bem”, resume. Ao fonoaudiólogo, assim, cabe trabalhar a oralidade para automatizar escrita.
Quem fala errado tem também maior dificuldade em se fazer entender, gerando problemas de comunicação e de relacionamento. Diante disso, a criança pode reagir de forma agressiva ou introspectiva, mostrando-se insegura e com baixa autoestima, prejudicando o processo de aprendizagem.

Como os professores podem ajudar?
É importante que professores e educadores tenham conhecimento da questão, pois convivem mais com as crianças do que seus médicos e, por isso, podem identificar antes uma disfunção. Se um aluno não consegue acompanhar o ritmo da classe, é preciso investigar o porquê.Além disso, é importante incentivar as crianças e jovens a falarem em aula. De acordo com Telma, a partir do momento em que ensinamos as crianças a escrever, elas param de falar: “Substituímos a fala pela escrita: o aluno precisa ler e responder por escrito. Quando ele fala, é considerado bagunceiro. Porém, pensar é fundamentalmente linguagem, precisamos saber se eles utilizam corretamente a análise sintática na fala e como isso vai aparecer na escrita. Quanto mais falamos, mais aprendemos a falar”, completa.
Segundo a orientadora pedagógica da escola Vera Cruz, em São Paulo, Daniela Pannuti, há casos em que a criança consegue superar eventuais dificuldades, como trocas de letras e omissões de fonemas, no decorrer do trabalho de alfabetização, a partir de atividades propostas pelo professor. Um exemplo de atividade é usar de um repertório estável, como uma lista de nomes dos colegas e das atividades de rotina, afixadas na sala de aula. Conforme se apropria dessa lista e faz associações entre as sílabas da lista com outras palavras, a criança consegue progressivamente corrigir seus erros de fala.

Como os pais podem ajudar?
Uma dica simples e valiosa para os pais: ao conversar com seu filho, use vocabulário apropriado à idade, mas sempre fale corretamente. Nunca infantilize sua fala para imitar o modo de falar dos bebês, como “bincar” ao invés de brincar, “tetê” em vez de mamadeira, pois dessa forma os pais incentivam a criança a persistir no erro.Cuidar da alimentação também pode ajudar, pois certos nutrientes interferem no processo de fortalecimento da musculatura oral. É imprescindível que as crianças consumam alimentos sólidos para fortalecer tais músculos, assim como o uso de mamadeiras e chupetas não deve ser prolongado, ainda que os bicos sejam ortodônticos.

Quando procurar ajuda?
A atuação clínica é fundamental para corrigir distúrbios da comunicação em geral. A partir do momento em que se corrigem problemas de fala, previnem-se também os de escrita. Da mesma forma, problemas comportamentais também podem ser corrigidos: quando as crianças aprendem a se comunicar, elas param de bater, chutar, morder…Os distúrbios variam de caso a caso, mas, em geral, se seu filho já completou 4 anos e ainda fala errado, ele deve ser avaliado por um fonoaudiólogo, pois isso evitará danos futuros no processo de alfabetização.

Fonte: ABRAMO - Associação Brasileira de Motricidade Orofacial


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